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Como oferecer a esperança do Reino de Deus a pessoas secularizadas e decepcionadas com a igreja

Leia antes: Teologia e secularismo (1)

Segunda parte – cuidando dos secularizados e decepcionados com a igreja

Apenas saber quem são e como se tornam secularizadas as pessoas não basta – a necessidade não é de conhecimento científico apenas, mas de um conhecimento que faça diferença na vida destas pessoas e que através de ações práticas possamos reverter muitos quadros de total decepção com a Igreja, com a liderança evangélica e mesmo com Deus, como se este último fosse o culpado por nossos erros relacionais.

Sem que tenhamos o objetivo de cuidar das pessoas não estabeleceremos um trabalho pastoral (aqui no sentido mais amplo do ser humano usado por Deus para cuidar de outros; cuidar da vida, das feridas, das dores, das decepções, dos desapontamentos, prover de alimento e proteção) e se não o estabelecemos perdemos o objetivo de que a igreja tem quanto aos dons que recebe do próprio Senhor – edificação do corpo de Cristo (Efésios 4) e esta edificação não se dá apenas agregando novas pessoas ao número dos fiéis, mas também cuidando de todos os que estão ao nosso lado.

Quase sempre proporcionamos que pessoas tenham acesso a Palavra de Deus pregada, quer seja através do púlpito ou mesmo em artigos, livros, sites, programas de TV etc, mas o que não percebemos é que algumas vezes isso só não basta, pois mesmo a Palavra de Deus sendo pregada, de acordo com as palavras do próprio Senhor, se a terra não estiver arada e preparada o fruto não virá, será sufocada, não terá raiz suficiente ou mesmo será levada por pássaros sempre a espreita para retirar alguns do meio de influência cristã – não podemos correr o risco de querer ver a frutificação da palavra de Deus, a germinação da semente, sem que antes coloquemos a mão no arado – irmãos, arar não é uma tarefa que podemos fazer sem nos envolver com a terra, sem colocar as mãos no arado e sem trazer dor e calor a nossa vida – envolvimento!

Há muito desconforto quanto a isso, pois apesar de entendermos que o mundo necessita de Jesus e da sua Palavra, ainda temos a sensação que nossa inserção no mundo é apenas acidental, onde as vezes pregamos, mas sem um envolvimento prático – pois não podemos nos contaminar com o mundo. Gostamos muito de falar que somos seguidores de Jesus ao mesmo tempo em que não nos envolvemos com as pessoas como ele se envolveu – viveu no meio dos pecadores, comeu com eles, participou de suas vidas, chorou suas dores, presenciou suas mortes, seus sofrimentos, condoeu-se, teve compaixão das cidades, irou-se com mercadores no templo, falou fortemente aos que conduziam a nação e muito mais – Jesus envolveu-se no seu tempo com as pessoas em seu próprio contexto; expondo-se e expondo a palavra de Deus em todo o tempo de sua vida, seja por ações seja por palavras ou mesmo quando do silêncio do seu interrogatório. Andar e viver como Jesus andou e viveu exige de nós uma prática vivencial, onde não nos contaminamos com este século, mas somos usados por Deus para a transformação da vida ao nosso redor – crer que este mundo esta apenas destinado ao fogo e destruição é não entender que Deus amou o mundo, que deu seu filho para o mundo e que transformará o mundo num lugar de paz, justiça e igualdade – é só ler os capítulo finais de Apocalipse para entendermos que Deus não abandonou o mundo, mas está enviando sua igreja para ser um agente de transformação neste mundo criado por ela e afetado pelo pecado, pela queda.

Há variadas causas que levam as pessoas a se tornarem secularizadas e o Prof. Jorge Barro (Faculdade Teológica Sul Americana, Londrina, PR) em seus Artigo “Os filhos pródigos da Igreja” – Revista Práxis Evangélica, 2007) enumera 6 destas causas: 1) Mudanças de situação de vida (mudanças de cidade, de bairro, separações, divórcios, morte na família etc) tem causados muito esfriamento e abandono do estilo de vida cristão em muitos; 2) Desencantamento com dos membros e pastores; 3) A Igreja como mercado de consumo; 4) A drácma se perde dentro de casa – causas internas que levam pessoas a abandonarem a Igreja; 5) Manipulação, abuso de poder e institucionalização e por fim, 6) Membros invisíveis – desprezo e não percebimento das pessoas ao nosso redor.

Wander de Lara Proença, historiador (Faculdade Teológica Sul Americana, Londrina, PR) diz com muita coerência que

Vivemos numa sociedade capitalista em que, sob muitos aspectos, cifras são vistas como sinônimo de sucesso. Assim, algumas práticas evangélicas atuais se expõem ao risco de se tornarem tão-somente uma oferta de produtos religiosos no já competitivo mercado de bens simbólicos submetidos à lógica do crescimento numérico de suas igrejas, ainda que para isso tenham de baratear a mensagem do evangelho ou, fazendo uma paráfrase bíblica, trocar o ´direito de primogenitura´ por ´pratos de lentilhas´ (…) Tem-se pregado um evangelho sem cruz, que não requer renúncia ao pecado e nem exige compromisso (Gn 25:33-34) (2004, p. 49).

Em nosso contexto, pensando em pessoas secularizadas existem cuidados que devemos ter. Vejamos:

Cuidando dos secularizados – passos práticos

Há 12 (ou mais) passos que poderemos seguir no intuito de cuidar de pessoas secularizadas. Estes passos (ou itens) devem ser a base de qualquer ministério que deseja ser relevante no cuidado para com pessoas secularizadas.

  1. Precisamos de ministérios que enfatizem a instrução dos valores e princípios cristãos, sem o estigma da “catequese” e do proselitismo; estes ministérios devem ser baseados em relacionamentos pessoais (através de redes). Há muita institucionalização e competição numérica por membros e assim somos tentados a enfatizar que o fato da igreja crescer numericamente pode parecer muito mais importante do que transparecermos o caráter de Cristo – nos esquecemos que é Deus quem constrói a sua igreja e a nós basta testemunhar (viver os valores e princípios cristãos);

  2. É necessário desenvolver ações que ajudem os secularizados a encontrar significados para a sua própria vida, respondendo suas dúvidas mais que apontando suas culpas; oferecer ministérios que respondam às suas necessidades. Há uma profunda busca de sentido para a vida nos dias modernos, pois o ser humano tem perdido grande parte da ótica objetiva que o norteia justamente porque não vive mais debaixo da influência da religião. Com a chegada da “pós-modernidade” perdemos a possibilidade de ter certos conceitos absolutos que norteariam nossa vida, pois tudo está em descrédito: a família, os valores sociais, a ética, os costumes, a Bíblia, a religião e até mesmo Deus parece não ter mais o crédito que deveria – assim, perdem-se os valores no meio do desacreditar e o rumo se vai, torto, apontando para lugar nenhum, não tendo noção de início e nem fim – o discurso é que devemos duvidar de tudo, pois é assim que a “ciência” advoga suas causas: duvidando para provar (ou não) as sua hipóteses;

  3. Será preciso que providenciemos que os secularizados tenham contato com cristãos confiáveis. Certa vez ao passar em uma mercearia numa cidade do interior de Minas Gerais vi escrito: “Não vendemos fiado para evangélicos”. Aquilo me chocou. Muitos de nós, no afã e zelo por “ganhar” mais almas preparamos verdadeiras armadilhas emocionais, relacionais ou até mesmo financeiras para que outros venham, caiam e percebam o quão miseráveis são para que tenham um “encontro com Jesus”! Na Igreja primitiva o método era outro: ganhava-se a simpatia do povo e Deus fazia a obra quando ele queria fazer;

  4. Há de se ajudá-los a descobrir o seu valor próprio para que vençam sua baixa auto-estima, através de ministérios que tenham relevância e utilize ferramentas que trabalhem com a restauração de pessoas com a auto-estima diminuída, com a produção de grupos de auto-ajuda, ministérios de aconselhamento e provisão de saúde integral etc. Por estar sem um referencial que possibilite uma leitura de suas próprias vidas, o secularizado passa por uma crise de identidade pessoal fortíssima gerando então um conceito de si mesmo bem baixo e despresível – não se sente pertencer ao mundo religioso que o cerca e não tem ainda (eu disse ainda!) coragem para colocar todos estes paradigmas que durante anos nortearam sua vida – vive então o dilema de não pertencer o que causa logicamente uma baixa auto-estima e fere seu senso de restauração;

  5. Proporcionar grupos de suporte para pessoas viciadas ou com dificuldades de relacionamento interpessoal. O isolamento, as alienações e a baixa auto-estima estimulam as pessoas tornarem-se dependentes de vários tipos de vícios que supram (inda que insatisfatoriamente) suas necessidades de sentido para sua própria vida – consumo, bebidas, drogas, sexo, dinheiro, poder etc;

  6. Estabelecer redes de relacionamento que promoverão o alcance e o cuidado com os secularizados; as redes de contato tornam o cuidado mais duradouro e aproveitável. Elas funcionam também como mantenedoras de afinidades, onde se pode instruir e prestar auxílio e serviços dentro de um contexto já assimilado e utilizado pelo secularizado; utilizamos este “meio” em nossa “vida secular” onde as redes tornam-se importantes para que os contatos que estabelecemos nos ajudem a subir degraus profissionais, porém, isso não é coisa “santificada” e por isso não podemos utilizar no ministério (!). As redes funcionam com seres humanos que geralmente não tem contato com gente de confiança, principalmente em questões religiosas quando já estão decepcionados e desconfiados, foram “traídos” de suas convicções e não tem mais nada a perder. Uma rede de contato que promova o relacionamento trará para a vida dos secularizados pessoas de verdade, de carne e osso que falham e que também acertam. Quando olhamos corretamente sobre as divisões denominacionais e suas “bifurcações” enxergaremos que há muito desgaste institucional e perda do conceito de lealdade – isso estraga a confiança e a base sobre a qual deveria estar sendo construída tal confiança;

  7. Promover ministérios que proporcionem o engajamento social; grande parte das pessoas secularizadas procura um engajamento social para que dêem sentido e re-significado à sua vida; a urbanização apresenta problemas sociais enormes, em que a diferença e a desigualdade são extremamente notadas. O sendo de comunidade se perde em meio aos barulhos da cidade. O Brasil tem passado por uma modificação gigantesca no tocante à urbanização, acompanhando o mundo, que migrou a maioria da população rural para a zona urbana. A mudança ocorreu, mas o ser humano “urbano” que ainda vive com convicções ainda rurais em sua ética, senso de comunidade e confiança sofre porque não vê mais estes princípios ao seu redor. Ao mesmo tempo em que tenta mudar (Paul Tournier diz que assim tentamos colocar entre parênteses os valores e princípios pelos quais vivemos) sente que esta traindo suas convicções antigas e seus marcos estabelecidos em família ou em comunidade e cada dia mais ele se sente isolado; não tendo o sentimento de pertencer mais a sua antiga comunidade rural e também não se sente um ser humano completamente integrado a urbanidade – assim o que pode fazer com que se restaure parte dos seus conflitos pessoais é o envolvimento em projetos de ação social duradoura – é talvez, uma grande maneira de promover significado a vida de pessoas que já perderam a esperança;

  8. Identificar e buscar pessoas receptivas; estes podem ser chaves no processo da construção das redes de amizade e contato; muitas vezes o processo doloroso através do qual pessoas secularizadas ou decepcionadas com a Igreja tem passado no contato (ou no deixar de ter contato) com a comunidade em que esteve inserido é por demais drástico – via de regra “processos disciplinares” ou mesmo aconselhamento de pessoas que “pecaram” de maneira mais “estrondosa” tendem a trabalhar com o afastamento do pecador da comunhão com outros iguais para que não haja uma “contaminação”. Precisamos ter pessoas que saibam conviver e que sejam receptivas com as dúvidas, dificuldades, pecados confessados e algumas vezes ainda não resolvidos, pois serão estes que farão ligação entre um coração ferido já pelo pecado e pela dor e pelo abandono e aquele tipo de vida que pode restaurar-lhes esperança; seres humanos receptivos são raros, mas precisamos procurar por eles e colocá-los juntos com estas pessoas;

  9. Oferecer formas culturalmente apropriadas de ministérios cristãos; o trabalho religioso tradicional, cheio de rituais e desprovido de ambientação cultural ativa não cativa o secularizado. Os melhores ministérios num trabalho missionário são aqueles que contextualizam a mensagem e incultura a vivência do grupo; não significa “vender” os valores e princípios cristãos, trocando por outros parecidos, mas não iguais, porém contextualizar a mensagem tem a ver com a proclamação do próprio evangelho em si – kerygma (palavra grega usada no Novo Testamento para mostrar uma “pregação do evangelho que traga uma mensagem que se entenda”). Não há nada pior para o evangelho do que ele se tornar alienante e alienígena para aqueles que o ouvem. Cristo encarnou-se e o seu evangelho é um evangelho “encarnado” onde a mensagem faça sentido no dia a dia – no trabalho, na escola, na família, nos negócios, na saúde, na sexualidade, no prazer, na diversão, na vida de culto…

  10. Multiplicar as unidades da igreja (através de grupos ou igrejas casa); os pequenos grupos (chamem como quiserem!) tem a tendência de promover maior interação e integração entre as pessoas, porém isso não deverá ser uma “estratégia” ou uma “armadilha” para alcançar pessoas, mas sim ser um lugar genuíno de florescimento da fé e vida cristã em meio a pessoas esperançosas e aqueles que não encontram mais sentido para a sua própria vida;

  11. Engajar as pessoas em sua própria realidade; o secularizado está em busca de sentido para a sua vida e não uma substituição por outra vida; engajá-los nas suas próprias realidades é tentar dar sentido ao que vivem; o processo é a re-significação dos conceitos, do ambiente, da vida, dos relacionamentos, minimizando-se assim efeitos de mudanças e trazendo esperança em meio ao seu próprio contexto;

  12. E por fim, oferecer a esperança do Reino de Deus. No viés da falta de esperança gerada pela perda de credibilidade que o secularizado tem no ser humano e em Deus, pela atuação dos seus pares corporativistas e interessados em resultados que justifiquem os meios, da própria vida e personalidade como estando fora de controle, nada melhor que oferecer a esperança do Reino de Deus.

Conclusão

Que tipo de cristão alcança/cuida dos secularizados?

Dos filhos de Issacar, conhecedores da época, para saberem o que Israel devia fazer, duzentos chefes e todos os seus irmãos sob suas ordens” (1 Crônicas 12.32).

O conhecimento da história e suas implicações; os fatos; as necessidades; os resultados das ações; suas reações; conhecimento político-econômico; conhecimento da realidade; conhecimento estatístico, censitário, demográfico – dos números, das tabelas, dos gráficos; interpretação sociológica devem transformar o perfil daqueles que desejam alcançar e cuidar de pessoas secularizadas em “conhecedores da época” como enfatiza o texto bíblico citado acima. Este conhecimento deve levar-nos para a aplicação disto, gerando uma estratégia que em meio ao caos seja norteadora das ações – uma ação com discernimento aplicada à realidade e que proclame de maneira clara e direta a esperança que somente o Reino de Deus pode oferecer.

Soli Deo Gloria.

 

Bibliografia Consultada

BORDIEU, P. Travail ET travailleurs em Algérie. Paris, La Haye, Mouton, 1963.

DECOL, René. Imigração internacional e mudança religiosa no Brasil. Comunicação apresentada na Conferência Geral sobre População, Salvador, 2001.

FONSECA, A Brasil. O jovem e a religião – em busca de uma nova gramática. Teologia Brasileira – https://www.teologiabrasileira.com.br/Materia.asp?MateriaID=309 – acessado em 09/09/2007

LIDÓRIO, Ronaldo A. Despersofinificação Processual – não publicado

NOVAES, Regina, e MELLO, Cecília. Jovens do Rio. Rio de Janeiro: Comunicações do Iser, nº 57, ano 21, 2002.

________ Os jovens “sem religião”. Rio de Janeiro: Estudos Avançados, nº 18, 2004.

TOURNIER, Paul. Mitos e Neuroses. Viçosa: Editora Ultimato, 2002
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Publicado na coluna semanal “Teologia para sobreviventes” no site www.irmaos.com