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Rascunho de uma solidão

Rascunho de uma solidão

Diz-se que a solidão é a grande inspiração de todo artista, a matriz de todas as poesias e a alma dos gênios – pensemos um pouco em um rascunho de uma solidão.

Não sei quanto disso é verdade, mas existe sempre em nós um rascunho de solidão e que quando as coisas da vida, do dia a dia, dos embates, das presenças ausentes se tornam reais, abrimos este rascunho. Para tentar editá-lo mais, fazer dele melhor, consertar algumas coisas, tentar colocar mais algumas ideias, uma imagem talvez…

Esse rascunho, porém, está sempre inacabado e é bom que esteja assim, pois sempre poderemos nos unir a ele, para reviver o que já produzimos e pensar em novas frases para serem colocadas ali.

Poesia

Walt Whitman dizia que fora da poesia, nada do que é dito é substancial.

De certa forma concordo com ele, porém eu diria que isso é apenas um “sintoma”, pois o que faz ser substancial qualquer palavra não é a forma como é escrita, mas sim o estado de espírito de quem exala palavras.

Creio que a solidão é a causa e é ela também o palco de onde as palavras surgem, brotam, crescem e aparecem. Seja em forma de poesia, seja em forma de discurso, seja em um silêncio daquilo que não pode ser dito em público, seja no escancarar de choro diante da multidão.

Nascemos sozinhos, mesmo os gêmeos nascem um de cada vez, morremos também assim isolados dentro de nosso “invólucro”. Ao longo de nossa vida ensaiamos companhias e teimamos em nos libertar da eterna solidão que acompanha nosso dia a dia.

Aprendizado

É preciso aprender as duas coisas: ser integrado socialmente com aqueles que têm afinidade conosco, mas é de igual modo necessário entender e aprender que a solidão é uma companheira para todas as horas e dela não tiramos apenas tristeza, mas meditação que nos faz crescer, pensamentos que resolvem nossos problemas, elevação de consciência em nós e muitos, mas muitos ‘insights’ para a vida.

Todo ser humano deveria se esforçar, assim como o faz para “se dar bem com as pessoas que convive”, deveria também esforçar-se para aprender a conviver com a solidão que há nele; essa não deve produzir medo, mas compenetração; não deve produzir saudosismos, mas saudade; não deve produzir apenas choro, mas muito rir-se de si mesmo sozinho e sem ajuda de ninguém; não deve produzir apenas depressão, mas também concentração.

Enfim, ser em solidão é uma prática que todos nós fazemos o tempo todo, mas querendo fugir dela, do encontro conosco, sozinhos e sem o espelho para nos medir, nos “enfiamos” em qualquer festa, em qualquer encontro, em qualquer movimento onde existem pessoas falando, porque ali, pra nosso pensamento medíocre, porque ali existe “vida”. As bocas abertas falando o que pensam e principalmente o que não pensam, movidos pelo álcool com um carro ‘flex’ não passam de desassossego de almas pueris que não conseguem ficar calados consigo mesmos e serem felizes com o que são. O encontro com as atividades, com os jantares, com as festas, com tudo que procuramos para substituir a solidão, apenas aumenta o buraco de dentro de nós e quando voltamos a nós mesmo, sozinhos, vemos que a solidão aumentou.

Aprender a viver consigo mesmo é a única coisa realmente sensata a se fazer nesta vida concernente à solidão.

Use este momento em que está a sós com você para ser aquilo que realmente é e treinar o seu pensamento não a vaguear de balada em balada, de churras em churras, mas, acredite, há muito mais aprendizado em uma hora de solidão do que em um ano de companhia com outros que não aprenderam (ou não estão aprendendo) a domar a solidão em seus corações.

A si mesmo …

Aprender a amar é antes de qualquer coisa aprender a amar-se. Para que você se ame, não basta um movimento narcísico, egoísta e ‘sentimentaloide’. É preciso se conhecer o objeto amado, no caso você mesmo. Para conhecer-se, as vozes exteriores mais atrapalham que ajudam.

Cale-se, leia-se, compreenda-se, viva-se, aceite-se, conheça-se, movimente-se na direção do seu interior e descubra as viagens maravilhosas que pode fazer dentro desse seu coração cheio de vivências e estradas que podem ser revisitadas e algumas campinas verdejantes que podem ser descobertas, com flores, árvores e frutos lindíssimos.

Antes de tentar amar o outro, ame a si mesmo, aí poderá se dar, se entregar, na verdade só aí terá o que dar e entregar.

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