Obras da carne versus fruto do Espírito (1)
31 de março de 2009
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31 de março de 2009
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Obras da carne versus fruto do Espírito (2)

Obras da carne versus fruto do Espírito: um olhar para a teologia do mundo, da carne e do diabo baseado em Gálatas 5 – parte 2

Este material foi escrito e baseado em obras de Hendriksen, de Adam Clarke, Aristóteles, Albert Barnes e Edith Hamilton 

No primeiro artigo desta série, vimos e entendemos melhor o que é a carne e como ela se manifesta em nós e através de nós – ou seja, vimos que somos carne; carne que vive, que luta, que perde, que vence, mas que também glorifica a Deus, louva, faz sua vontade e, portanto, temos possibilidades de viver a vida cristã com alegria, sabendo que Deus nos faz mais que vencedores

Devemos, ao saber um pouco mais sobre a carne, lutar para vencer seu domínio em nós. Vejamos como lutar para vencê-la. 

Lembrando do herói pouco provável, Dom Quixote de La Mancha, vemos que se destaca como um dos heróis mais ridículos e tolos da literatura mundial, justamente porque desejava conquistar um grande moinho de vento montando num cavalo que mal se mantinha de pé. Ele investiu contra o seu adversário com uma lança, mas errou na identificação do inimigo e na maneira de vencê-lo.

Nós fazemos algo semelhante em nossa luta contra a carne. 

As armas que usamos para lutar contra Satanás e o mundo não podem e nem devem ser usadas para combater a carne. 

  1. A carne é fraca – (Mateus 26.41) no Novo testamento, a carnalidade e a imaturidade se identificam (I Coríntios 3.1-3). O primeiro passo na vitória sobre a carne é o reconhecimento de nossa dependência. Como uma criancinha que não tem condições de sobreviver sozinha, assim também o espírito independente não dispõe de condições necessárias para vencer o pecado que se esconde em seus membros (Colossenses 3.5).

 O princípio bíblico essencial para enfrentar a carne é:

Sinto prazer nas fraquezas…

porque quando sou fraco então é que sou forte

(II Coríntios 12.10)

Só vigia quem sabe que seu inimigo o espreita com sutilezas e surpresas. O leão não vigia, mas o veado sim, sempre alerta e desconfiado, fareja o ar para proteger-se do inimigo em tempo hábil (I Pedro 5.8). 

  1. A boa consciência – nossa fraqueza humana, que deve criar uma dependência no Senhor, tem um lado oposto e perigoso. Uma inclinação notável em não confrontar o erro, e evitar o desgosto de levantar a voz com uma palavra que denuncie a iniqüidade, é parte integrante da natureza carnal. Decisões pequenas e sem força, mas comprometedoras, pouco a pouco endurecem o coração, justamente porque preferimos deixar passar a iniqüidade a confrontá-la ou confessá-la (I Timóteo 1.19).
  1. O auxílio externo – a inconstância e a lentidão da carne na luta para realizar o “bem que está em mim” (Romanos 7.18) exigem uma capacitação externa. Romanos 8.10-14 e Gálatas 5.16 desvendam o segredo da vitória sobre o poder da carne – andar no Espírito, viver no Espírito (Gálatas 5.25) e ser guiado pelo Espírito põe em relevo o fato central de que o Espírito, a promessa da nova aliança (Atos 2.38), nos é concedido para realizar a boa e perfeita vontade de Deus.

À proporção que Deus enche nossa vida com o seu Espírito, o poder dominador da carne diminui, e é justamente por isso que o próprio Paulo orienta para que nos “enchamos com o Espírito Santo” (Efésios 5), enfatizando que esse enchimento deve se dar de forma contínua e repetidamente, quando o Espírito vai, então, invadindo área por área de nossa vida e relacionamentos para fazer com que o poder da carne exposta pelo pecado diminua. 

Paulo enumerou corretamente as obras da carne, e agora quero falar sobre os recursos que temos a nosso dispor para mudar esta situação. A Bíblia orienta como lutar contra a carne mostrando algumas estratégias.

  1. A destruição das fontes de sustento – em primeiro lugar, devemos tomar medidas para sufocar a carne, privando-a de tudo o que a sustenta – “nada disponhais (pronoian – ´premeditação´) para a carne, no tocante às suas concupiscências” (desejos malignos, Romanos 13.14).

Algumas perguntas devem ser feitas: quais são as práticas que sustentam a minha carnalidade? Conversas torpes e picantes? Televisão? Intimidades demasiadamente fortes com o sexo oposto? Liberdade financeira demais? Não tenho a quem prestar contas? A idéia do texto não é de que você e eu não devemos conversar, ter intimidade, ver televisão ou viver com nossas necessidades – mas sim, colocar todas as nossas atividades, palavras, pensamentos e sentimentos debaixo do critério bíblico, debaixo da vontade de Cristo. O exercício não é para algo que se faz de uma vez por todas, mas paulatinamente, transformando-nos pela renovação da mente, indo de ponto a ponto, palavra a palavra, e em cada uma exercer o controle que já nos foi dado pelo Espírito “regada” pela palavra de Deus. 

  1. A mortificação da carne – devemos “matar” a nossa natureza terrena (Colossenses 3.5). Crucificar a carne (Gálatas 5.24) significa cortar todo incentivo que lhe faz ainda ficar viva.

A vontade humana é recheada de razões que justificam a carne com sua paixão e ação – fazer morrer a natureza carnal é justamente anular nossa vontade em relação ao pecado. Não é mortificar-nos e tirar de nós o prazer, mas sim confrontar nossa vontade com a vontade de Deus – estando diferente, é necessário anular a nossa. Fazer as coisas sem prazer, mas corretas, é preferível a ter prazer nas erradas

  1. O afastamento das paixões – a vitória sobre o mal em nós demanda fuga – I Timóteo 6.11. Lembre-se de José na casa de Potifar.

Muitas vezes não conseguiremos deixar de sentir ou deixar de fazer, então o remédio é fugir das paixões. Passar ao largo. Ao andar em uma estrada em que há um grande buraco e nele cair, temos a grande tendência de todos os dias, ao levantar-nos e caminhar, de passar por perto do buraco, olhar de perto, talvez testar se a terra perto do buraco está firme, e sempre que chegamos perto, novamente caímos, e o dia posterior geralmente é do mesmo jeito. A única possibilidade de ficar sem cair neste buraco quase sempre é mudar a estrada pela qual se caminha – tomar outro caminho, não passar perto do buraco nem mesmo olhar para ele. 

  1. O despojamento da carne – retirar os vestidos carnais do velho homem e se revestir com a nova roupa do novo homem (Efésios 4.22, 24; Romanos 13.12, 14; Colossenses 3.8; Hebreus 12.1; Tiago 1.21; I Pedro 2.1). Ou seja, a carne e suas obras devem ser sistematicamente colocadas de lado.

Ao tomar banho, se não providenciar uma roupa limpa para que ao terminar de tomar banho você a vista, o que vai acontecer? Vai vestir a roupa suja. Com a carne é a mesma coisa. Se não providenciar novas maneiras de pensar, falar e agir, não adianta vencer o pecado, ele vai voltar, pois praticará as mesmas coisas, estará na mesma situação, com os mesmos pensamentos. 

Toda esta parte é a negativa, ou seja, como retirar de nós coisas, pensamentos, palavras ou ações que nos moldam e exercem sobre nosso caráter uma massiva influência, transformando simples ações em reações aos mais profundos e arraigados desejos carnais. 

Existe porém, mais que isso – nossa luta contra carne não é simplesmente mortificar-nos como se fossemos matar nosso corpo para salvar o espírito, mas existe muito mais de Deus pra nós. Este é o tema do próximo artigo. Vamos lá!
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Publicado na coluna semanal “Teologia para sobreviventes” no site www.irmaos.com