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Espiritualidade desencarnada ou carnalidade sem espírito?

Há em nosso meio uma longa série de tentativas do ser humano no decorrer dos séculos para aproximar a sua espiritualidade de sua vida “carnal” (por carnal, não estarei me referindo daqui por diante sobre o pecado, mas sobre a condição de cada ser humano que vive “em carne”, a vida propriamente dita). Essa luta tem sido, no entanto, inglória em diversas situações ou seguimentos teológicos. 

Vou tomar neste estudo um assunto controverso como exemplo do que esperamos em termos de espiritualidade e carnalidade: a sexualidade humana.

Existe uma banalização da sexualidade por um lado, para tomar como exemplo, onde o sexo se transforma em mero objeto de prazer e por outro lado num obscuro método de procriação sem prazer. Não conseguimos evitar os danosos lados contrários: ou temos a abertura para a sexualidade completamente irreverente, onde o prazer é substituído pelo hedonismo (“eu me amo, sou muito importante, portanto o meu prazer é o único objeto da minha existência”) ou olhamos para a sexualidade como uma aberração causada pelo efeito do pecado no ser humano – achamos que Deus nos criou sexuados, mas com condições de que esse sexo fosse apenas para a perpetuação do ser humano na terra – daí, tudo que tem a ver com o prazer sexual precisa (!) estar ligado ao pecado. Por isso, muitos de nós se sentem sujos e insatisfeitos quando do relacionamento sexual (mesmo dentro do casamento!). 

Será pedir demais para percebermos a sexualidade como algo Divino?! Criada por Deus, utilizada como meio de perpetuação sim, mas não somente! A sexualidade é bíblica e, teologicamente falando, talvez uma das maiores referências que Deus faz de si mesmo em relação ao seu povo – o problema é que olhamos para vários aspectos do relacionamento de Deus conosco, mas não atentamos para este fato, pois não conseguiríamos comparar Deus conosco desta forma. 

No AT Deus se chama de “marido” e Israel por vezes é uma esposa infiel que ele continua amando. No NT Jesus é o “noivo” da Igreja que deverá ser levada para as bodas. Falar que o ideal de Deus para a sexualidade do ser humano não permeia a própria visão quase “antropomórfica” da questão é deixar de lado algo muito importante nos relacionamentos “maritais”. 

As comparações são óbvias e expressam muito do relacionamento que Deus espera dele mesmo e do seu povo. Paulo, quando expressa sobre isso em Efésios manda os maridos amarem suas esposas como Cristo ama a sua Igreja. Esta expressão do amor, do cuidado, do zelo, do carinho, do compartilhar das dores e das vitórias, ou seja a totalidade da vida é muito profunda e vale a pena entender isso não somente do ponto de vista de Deus, divino, mandamento ou mesmo o que o Senhor espera de nós, mas do ponto de vista humano, entrega, fé, cumplicidade, totalidade, união, comunhão e tudo o mais que os relacionamento devem ter.

Vamos olhar mais atentamente para o texto bíblico:

Em Gênesis 4.1 vemos a expressão – “coabitou” referindo-se ao ato de Adão e Eva de se “conhecerem” sexualmente. O sentido especial da palavra no AT denota um conhecimento muito mais que o simples ato sexual, mas uma atitude de intimidade a que estão expostos os dois no ato sexual. O prazer não é mero objeto de manipulação de órgãos sexuais, mas sim no aprofundamento do conhecimento mútuo, seja conhecimento inerente ao ato em si, pontos de toque, sensibilidades ou mesmo preferências, como no conhecimento intelectual do outro, da alma, dos conceitos e necessidades.  Coabitar é mais que manter relações sexuais, é, antes de qualquer coisa, “conhecer em profundidade o outro”. 

É necessário e urgente fazer-se em nosso meio uma diferenciação entre perversão sexual e ato sexual. Deus criou o ato e o pecado gerou a perversão. Deus criou, inclusive colocando dentro do arcabouço de sua visão da perfeição e bondade que havia criado – “crescei e multiplicai” (de Gênesis 1.28) está antes da palavra de Deus que engloba tudo isso – “E viu Deus que tudo era bom” (Gênesis 1.31). Deus viu tudo o que criara como sendo bom e agradável, perfeito, inclusive a união sexual.

Apesar de Freud (Sigmund Freud, fundador da psicanálise) não concordar que sexo era uma coisa boa, mas quase uma aberração, ele trouxe um grande avanço ao demonstrar que ele fazia parte de nossas necessidades fisiológicas assim como a sede, a fome e o próprio sono. Portanto, ao comer e beber não estamos apenas nos alimentando, mas também nos proporcionando prazer ao sorver um líquido delicioso como um café com creme num dia de chuva ou então participarmos de uma comunhão gostosa com muito churrasco com carne de qualidade. Dá prazer beber e comer e é esperado isso, porém, do ato sexual, muitas vezes olhamos com desprezo pois parece ser coisa que o diabo inventou para o pecado do ser humano. O prazer em dormir bem, acordar bem-humorado é algo que não deve ser tolhido de nossa vida, assim como o prazer sexual.

Nossa espiritualidade não pressupõe alguém que, isoladamente dos prazeres, conecta-se com Deus. Deus não nos quer soturnos, entristecidos ou cabisbaixos para aceitar nossa vida de louvor, adoração em reconhecimento do que ele é em nós e por nós. Ele não nos leva a clausura, não nos quer trancados num convento, isolados dos “prazeres”, antes está em nossa vida proporcionando um vinho novo, vestes novas, vestes de alegria, prazer em servir a ele, prazer na amizade, no conhecimento e reconhecimento do outro. 

Há uma necessidade de entendimento de uma espiritualidade integral – integral porque a vida é integral. O corpo não é corpo sem a alma e a alma é nada sem o corpo. Somos seres humanos dotados de alma, mas que pertencem a uma totalidade que pressupõe nosso corpo, limitado sim pelo pecado, mas abrangente o suficiente para nos proporcionar alegria, prazer, bem-estar, satisfação e gozo. 

A graça de Deus sobre nossas vidas atinge muito mais do que imaginamos. A graça de Cristo me alcança em lugares onde nem posso imaginar que ela iria, sem que o sentimento de pecado tome conta do meu pensamento.  A graça de Cristo é adoravelmente livre em sua ação pois, assim como o Espírito Santo, sopra onde quer, vem da maneira que quer e não tem pressuposições, ressentimentos ou necessidades anteriores a serem supridas – por isso é graça; por isso é livre; por isso liberta; por isso é o canal do amor de Deus para conosco. 

Não há liberdade que o amor de Deus não proporcione e não há cadeias que o mesmo amor não liberte. A libertação da vida para uma espiritualidade sadia, cristocêntrica e integral é o intuito da verdade que Cristo transmite para os seus – o conhecimento da verdade deve gerar libertação em nós – conhecimento, reconhecimento, assimilação, mudança de vida… deve gerar liberdade, liberdade para agir, pensar, falar, aprender, corrigir a rota… deve gerar alegria ao perceber que a graça atingiu tudo em sua vida – seus preceitos, os mandamentos, bem como as alterações do humor, da vida e do caminho de Deus em nós e conosco. 

Graça de Deus é muito mais que simplesmente um perdoar de pecados, mas é um caminhar de Deus conosco. Deus conosco é sua graça que invade e substitui nossa antiga percepção da vida – vivíamos de maneira legalista, olhando para o que podíamos fazer ou não e nos sentindo culpados quando não atingíamos o grau de perfeição de Deus (como se fosse possível ser como Deus, bem que o diabo tentou!). Graça é quando percebemos que não somos mais medidos, que não somos mais atingidos por raios vindos de qualquer Olimpo! Graça é quando entendemos que o conhecimento de Deus é possível – não um conhecimento essencial,  mas relacional. Graça é quando entendemos Deus quer nossa felicidade e alegria tanto quanto quer a dele – e ele trabalha em nós para isso. Graça é quando entendemos que nossos atos, nossas dúvidas, o tamanho de nossa fé, a quantidade de nossas obras, nossos relacionamentos, nossa maneira de enxergar a vida, a quantidade de oração que fazemos, enfim, qualquer coisa não irá nos separar do amor gracioso de Deus. 

Deus nos ama incondicionalmente, pois a essência do seu próprio amor é baseada nele e não em nós, portanto não há ação, pensamento, palavra ou omissão que irá fazer com que Deus tenha menos graça e amor sobre você ou sobre mim.  A percepção disso mudará sua vida no conhecimento daquela verdade que liberta ao mesmo tempo em que o seu amor dedicado a ele será a única resposta, mero fragmento, seu para com a graça liberada sobre sua vida. 

Deus quer uma carnalidade (lembre-se do contexto em que explico o termo acima – se não lembra, leia novamente!) exposta ao padrão da sua graça – com liberdade, onde o corpo e a alma sejam unidos em expressão para o louvor da sua glória; onde você e eu possamos acordar sabendo que esse sono delicioso, restaurador de minhas forças glorifica a Deus e faz bem à minha alma que é fruto da graça de Deus para com minha vida; onde saibamos que ao digerir um alimento que nosso paladar deseja e aprendeu a gostar estamos trazendo sobre nossa vida também uma espiritualidade concernente à graça de Deus sobre nossas vidas; onde possamos enxergar o conhecimento sexual não apenas como ato sexual mas como um conhecimento profundo e abrangente e que, na liberdade que a graça traz sobre nós, glorifique o nome de Deus.

Que Deus seja cada dia mais gracioso conosco e nos dê da sua paz que excede todo entendimento.
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Publicado na coluna semanal “Teologia para sobreviventes” no site www.irmaos.com