Escatologia missiológica: uma breve análise do pensamento de Jesus sobre escatologia e missões (2)

Escatologia missiológica: uma breve análise do pensamento de Jesus sobre escatologia e missões (1)
31 de março de 2009
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31 de março de 2009
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Escatologia missiológica: uma breve análise do pensamento de Jesus sobre escatologia e missões (2)

Este artigo é uma continuação do assunto anterior,  onde fizemos uma breve viagem na questão do tempo na visão de Jesus e de seus discípulos.

Agora, tentando apenas lembrar, os discípulos estão muito interessados no fim de todas as coisas, mais especificamente, no fim concernente a Israel e a Igreja, onde eles desejam entender como é que se dará o Reino de Cristo de forma correta.

Em Mateus, novamente vemos os discípulos perguntando pra Jesus a respeito deste mesmo fim numa tentativa de trazer a escatologia para um entendimento mais perto da realidade deles.

Vamos ao texto:

Mateus 24

Uma breve análise profética do diálogo sobre o fim entre Jesus e seus discípulos

No evangelho segundo Mateus, vemos a narrativa do sermão profético de Jesus aos seus discípulos, quando estes lhe fazem uma pergunta:

“Senhor… que sinal haverá da tua vinda?” (24.1)

Na resposta de Cristo encontramos a narração dos sinais que antecederão a sua volta. Nos versos 5 a 8 ele fala de:

– “Falsos cristos”, “guerras e rumores”

– “nação contra nação”, “reino contra reino”

– “fomes” e “terremotos”

E isso ele chama de “princípio das dores”.

Estes versículos retratam o que normal é chamado de PRIMEIRO ESTÁGIO, pois a ênfase de Jesus Cristo quanto aos sinais é geral, extensa a toda a terra. Não é algo que recai sobre alguns, a Igreja ou ao mundo, mas a todos.

No versículos 9 a 11 Jesus muda totalmente a forma de narração e agora diz:

– “sereis atribulados”, “vos matarão”

– “sereis odiados”, “falsos profetas enganarão a muitos”

– “o amor esfriará de quase todos”

Este é denominado como SEGUNDO ESTÁGIO, pois a ênfase de Cristo não é mais geral (quanto à toda terra), mas sim pessoal. Jesus está falando sobre o que acontecerá diretamente aos discípulos, à Igreja.

No versículo 14, finalmente ele enfatiza:

E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim”

Este é o que chama-se de TERCEIRO ESTÁGIO pois a ênfase não é mais geral (à toda a terra), nem pessoal (à Igreja), mas missiológica (quanto ao alcance das nações).

Vejamos. Jesus utiliza a expressão:

E será pregado”. O termo “e” implica no texto como uma continuidade de pensamento dos versos anteriores. No grego koinê (língua utilizada pelos escritores do NT) dá a idéia de “e após estas coisas”.

O que será pregado? Este evangelho do reino.

Porque “este”? “Este” qual? Creio que se refere ao verso anterior onde os termos enfáticos são perseverança e salvação (24.13). Se assim for, ele gostaria que o evangelho que será pregado seja o evangelho da perseverança e salvação. De qualquer forma ele diz que:

E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim”.

O termo para é que define todo o versículo. Creio que o mais coerente com a mensagem de Cristo seja entendermos que este evangelho será pregado por todo o mundo “com a finalidade de dar testemunho a todas as nações.

O termo nações (ethne) no Novo Testamento é o que em português entendemos por etnias: um grupo de pessoas com língua e cultura própria.

O ponto mais importante, entretanto, está na questão exposta na última frase do versículo:

Então virá o fim

E então” é a parte que define o fator cronológico deste versículo, pois possui o sentido de “e após estas coisas”. Isto leva-nos à grande conclusão do texto:

Jesus Cristo não virá antes que o evangelho do reino seja pregado por todo o mundo, dando assim testemunho a todas as etnias da terra.

Corroborando com este pensamento Timóteo Carriker, em seu livro Missões na Bíblia, Edições Vida Nova, 1992, diz:

O ensino de Jesus sobre o reino também tem a ver com missões, pois foi justamente este assunto que ele abordou com os discípulos no período entre a ressurreição e a ascensão, preparando-os para o Pentecoste e a explosiva expansão missionária da Igreja. Durante quarenta dias nosso Senhor, já ressurreto, ministrou um “curso intensivo de missões” a seus discípulos. O tópico? O reino de Deus!

Por isso, o assunto é de muitíssima importância para missões. O reino de Deus possui dois aspectos temporais. Por um lado, já está presente, pois o próprio ministério de Jesus, em sua primeira vinda, o inaugurou (Lucas 11.20; Mateus 12.28). Por outro lado, seu cumprimento ainda não se deu, porque aguarda a volta de Jesus (Mateus 13.40-41). Os dois lados são importantes. Neste capítulo, contudo, queremos destacar a volta de Jesus e o cumprimento de seu reino em relação a missões.

O SINAL DE SUA VOLTA: MISSÃO CUMPRIDA

Quando os discípulos perguntaram qual seria o sinal (no singular) de sua volta e da consumação deste período intermediário (Mateus 24.3), Jesus fez uma lista dos sinais (no plural) do período histórico que precederia sua volta (Mateus 24.4-12) e depois respondeu à pergunta deles (de novo no singular), quanto a este sinal:

´E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim (Mateus 24.14)´.

Isto deixa claro que o evangelho será pregado em todas as partes do mundo, até bem pouco antes de sua volta (…)

Nós somos os precursores de sua vinda. Quando você e eu tivermos respondido em obediência, levando o evangelho até os confins da terra, então este mesmo Jesus voltará (…)

Por isso, quando em outro lugar os discípulos perguntaram quando seria a restauração do reino, a resposta foi a mesma – missões (Atos 1.6-8). Não nos preocupemos com sinais (épocas, tempos etc) e sim, com um sinal: a pregação do reino a todas as nações.”

Um outro testemunho deste pensamento é o que Ronaldo Lidório, em Missões o Desafio Continua, Editora Betânia, 2003, escreve:

Mateus 24.14 nos ensina que o “fim” não virá até que o evangelho do reino tenha sido pregado por todo o mundo, ´para testemunho a todas as nações´. E Pedro nos convoca a esperar e a apressar a ´vinda do dia de Deus´ (2 Pedro 3.12).

Acredito que o alcance de todos os povos é o relógio escatológico de Deus para a vinda de Cristo – quando o ´testemunho´ chegar ´a todas as nações´.”

Podemos pensar então que a ênfase de Jesus realmente nunca foi futurística, mas prática quanto ao alcance das nações, quanto à proclamação kerigmática (kerygma significa proclamação no NT grego) de uma igreja martírica (martiria dá idéia de testemunho no NT grego)até aos confins da terra como forma de testemunho; testemunho de um evangelho perseverante, transformador, que não anda a cata de almas, mas que vive o poder de Deus e que olha pra frente com os pés no presente e que caminha com santidade de vida.

Vivemos inseridos no “já” esperando o “ainda não”. Oscar Cullmann diz que “já foi ganha a batalha decisiva. A guerra, porém continua até o dia da vitória, já certeiro, ainda não marcado com exatidão, quando as armas finalmente serão silenciadas. A batalha decisiva seria a morte e ressurreição de Cristo e o dia da vitória sua parusia” (Salvation in History, citado no Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento).

No texto correlato a Mateus 24, o que se encontra em Marcos 13, no versículo 10 Jesus diz: “Mas é necessário que primeiro o evangelho seja pregado a todas as nações” e segundo o Dr. Russel P Shedd é utilizada a expressão grega “dei” que indica algo “absolutamente necessário” – ou seja a pregação do evangelho a todas as nações, como testemunho é absolutamente necessário para que a parusia de Jesus finalmente aconteça na sua plenitude, para que o “ainda não” se torne um “”.

No fim, o que importa realmente não é como enxergarmos o futuro, nem como o dissecamos, mas o que fazemos enquanto ele não vem – como bem disse o apóstolo Pedro que devemos “ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus” (II Pedro 3.11 e 12) e assim sermos “achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” (II Pedro 3.14).

Esse é o desejo de Jesus para com seu povo, que haja em nós não um sentimento de distância ou de inconformismo, mas que haja uma dedicação especial para com a Missão da Igreja e que então se leve o evangelho do reino de Jesus entre todos os povos, pois o fim certamente vem!

Ao responder sobre a questão do reino refletimos então que a autoridade que a Igreja é revestida tem como finalidade a proclamação do evangelho entre todas as nações, sendo esse o principal objetivo de Jesus com estas afirmações profético-escatológicas, ou seja, afirmações puramente missiológicas.

Creio que o desejo de Deus hoje seja o crescimento de uma igreja que olhe além do horizonte, para encontrar nas perguntas que a alma faz sobre o futuro a resposta que ele mesmo já deu: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19).

Que implicações isso traz para a vida cristã de forma prática? Esta é uma pergunta que procurarei responder no meu próximo artigo desta série.

Deus nos abençoe!
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Publicado na coluna semanal “Teologia para sobreviventes” no site www.irmaos.com