Escatologia missiológica: uma breve análise do pensamento de Jesus sobre escatologia e missões (1)

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Escatologia missiológica: uma breve análise do pensamento de Jesus sobre escatologia e missões (1)

Estive olhando no Youtube tentando entender (sem compreender!) como é que existem tantos pessimistas de plantão, vendo em cada destruição, terremoto e desgraça como “sinal” da graça de Deus – que contradição! Os arautos da desgraça e do pessimismo apregoam a destruição, alegram-se quando eventos deslocam a realidade e trazem consigo o mal, porque vêem nisso a manifestação do poder de Deus e da segunda vinda de Cristo.

É impossível falar sobre escatologia sem olhar (e mencionar!) o futuro, mas também é impossível falar sobre escatologia sem olhar e mencionar o presente, por isso quero propor neste estudo que você se desarme, coloque ao lado suas armas de combate e tente (pelo menos tente!) enxergar um pouco mais sobre este tema tão controverso e talvez tão pouco compreendido – a escatologia.

Inicio com o pensamento do Dr. Russel Shedd, no seu livro “Escatologia do Novo Testamento” (Vida Nova, 1991) que diz: Sinais do fim não se encontram nas guerras, nem nos terremotos, nem há da parte do Senhor alguma referência ao retorno dos judeus à Palestina. (…) O sinal claro que aponta para o fim Jesus afirma claramente: não é outro senão a evangelização universal do mundo”. 

Como diz Alberto Fernando Roldán (“Do terror à esperança” – Descoberta, 2001) “não há como falar em escatologia sem falar da missão da Igreja”.

Gostaria de dividir então nosso assunto em 3 partes: Primeiro iremos estudar brevemente o capítulo 1 de Atos; em segundo lugar estudaremos o capítulo 24 de Mateus e por fim, em terceiro lugar, levantaremos perguntas e algumas conclusões que estes estudos preliminares nos darão.

Vamos ao texto:

Atos 1

Uma breve análise do tempo no diálogo entre Jesus e seus discípulos

Um dos assuntos mais enfáticos de Jesus Cristo era o reino de Deus. Falava aos discípulos sobre o reino presente e futuro e sobre sua escolha de homens para a ação neste reino. Após morrer ele ressuscitou e passou 40 dias falando ainda sobre este reino. No momento de subir aos céus tem início um diálogo entre Cristo e seus discípulos:

“… Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel” (1.6).

Com que estavam os discípulos preocupados? Sem dúvida com Israel (etnocentrismo), mas acima de tudo estavam preocupados com o tempo em que Israel seria restaurado.

 A pergunta é absolutamente escatológica. No texto grego a palavra utilizada para o que é traduzido por “tempo” é “chronos”, o “tempo humano”, linear. Era uma pergunta sobre a agenda dos últimos dias. Os discípulos estavam interessados em conseguir de Jesus justamente isso: o dia, o mês e o ano (a época precisa) da restauração de Israel.

Ao utilizar a expressão “será este” – touto   indica que eles esperavam uma restauração imediata com objetivo definido, um rompante de Deus intervindo no mundo da forma que existia na época; “que restauras”   apokathistaneis – aponta para uma reconstrução nacional política e o complemento a Israel’dá um tom político/territorial, a independência de Israel. Calvino concorda que dificilmente os discípulos teriam em mente um Israel espiritual e George Meer chegou a crer na possibilidade da existência de uma reunião anterior a este questionamento onde os discípulos teriam entrado em acordo sobre o que perguntar ao Senhor mostrando que não se tratava de uma interrogativa aleatória e non seguitor. (Ronaldo Lidório – Atos, a história continua – ainda não publicado)

Jesus, porém responde: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade” (1.7)

O texto original poderia utilizar duas opções para compilar a resposta de Jesus para “tempos ou épocas”:

chronos a resposta poderia ser registrada como chronos, já que a pergunta foi feita usando este termo. Desta forma a ênfase de Jesus seria: “Não vos compete conhecer o dia, o mês ou o ano que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade”. Se ele respondesse assim estaria condicionando o assunto escatológico a uma esfera puramente humana, como se a história pudesse mostrar os planos de Deus simplesmente pelos acontecimentos, sem que houvesse uma intervenção sobrenatural.

kairos – O kairos (tempo oportuno de Deus) também poderia ter sido usado na construção da resposta e daí a ênfase seria: “Não vos compete conhecer o tempo oportuno de Deus que ele reservou para sua exclusiva autoridade”. Assim Jesus estaria mostrando que não era da competência dos discípulos conhecer o tempo de Deus, ou seja, a economia soberana do Senhor para que o reino fosse instaurado completamente.

Lucas, ao construir a expressão, utiliza-se dos dois termos: “chronos kai kairos

Não vos compete conhecer tempos (chronos) ou épocas (kairos) que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade”; Jesus não havia formado a sua Igreja para se preocupar com os tempos, nem chronos, nem kairos; ele não formou uma Igreja para ficar preocupada com escatologia, pois a prioridade de Jesus não era escatológica, últimos dias, eventos finais, consumação do século, mas  MISSIOLÓGICA quando no versículo 8 ele inicia com a expressão “alla” (mas), ou seja, em uma justa contraposição do que foi falando anteriormente, o centro do meu ensino é:

“… recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas…” (1.8a)

“Com estas palavras Jesus escolhia enfatizar o seu ensino sobre o Reino de Deus; não seu caráter ou composição mas sua expansão, a Missio Dei.”(Ronaldo Lidório – Atos, a história continua – ainda não publicado).

Continuando a falar ele deixa bem claro também a extensão deste testemunho:

“… tanto em Jerusalém,como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. (1.8b)

A pergunta que fica aqui é:

Será que os discípulos entenderam isso? Apesar da temeridade, inconstância e relutância destes discípulos no livro de Atos, segundo a tradição histórica Mateus foi para a Etiópia (África), André alcançou os Citas (Rússia), Bartolomeu atingiu a Arábia e Tomé a Índia. Paulo por sua vez foi testemunha na Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Até onde vejo, eles entenderam o desejo do Senhor: “até aos confins da terra”.

Os confins – de eschatos da terra é um adjetivo pronominal  que pode ser mais literalmente traduzido por fim, ou seja, não se refere a uma região ou área geográfica em particular mas, seja qual for a extensão da terra, até o seu fim. Não importa o nosso conhecimento étnico e geográfico do mundo, enquanto houver uma pequena floresta, deserto, montanha ou savana onde habitam homens que ainda não ouviram falar de Jesus, ainda não chegamos ao fim.(Ronaldo Lidório – Atos, a história continua – ainda não publicado)

Jesus (fica claro no texto) rejeitou a proposta interrogativa dos discípulos, não respondendo a questão como eles queriam, mas deixou claro o seu ensino, a ênfase que deveria ser dada a partir daquele momento e toda a extensão e responsabilidade que aquilo (a formação de um povo, da Igreja) envolvia. Não há de se afirmar a partir desta pequena análise que Jesus não se importava com o tempo ou com as épocas, com os eventos, com as desgraças e as guerras, mas, o que pretendo afirmar é que Jesus mostra sua PRIORIDADE: a igreja deveria envolver todo o seu tempo e esforço no seu testemunho cristão, uma ação que envolve ser SAL e LUZ para o mundo inteiro e isso até que ele venha novamente e estabeleça o fim. 

Quando falamos sobre o fim precisamos lembrar o ensino profético de Jesus a esse respeito e o principal sermão sobre o tema encontra-se em Mateus, capítulo 24 e isso será na próxima semana.  Até lá!
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Publicado na coluna semanal “Teologia para sobreviventes” no site www.irmaos.com