Ensaio sobre a antropologia teológica de Paulo na Epístola aos Gálatas

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Ensaio sobre a antropologia teológica de Paulo na Epístola aos Gálatas

“… não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl 3:28)

A carta de Paulo aos Gálatas é denominada por muitos como a Carta Magna da Liberdade Cristã, pois nela existe um espiral de libertação mostrando para os cristãos da época, e esperamos que para nossa época também, que em Cristo TODAS as diferenças subjazem crucificadas assim como ele o foi. Entendo que Paulo não trata da cristologia, ou da soteriologia, ou escatologia tendo como ponto de partida (ou de chegada!) a doutrina em si, mas sempre há em sua mente uma correlação entre o que se pretende ensinar e a necessidade ou situação em que se encontram os seus leitores; ou seja, esta não é uma carta doutrinária mas um escrito que pretende ter um grito vivencial, dirimindo assim dúvidas e situações própria vividas pelos crentes da galácia (e tantos outros) bem como do próprio Paulo.

O teólogo alemão Rudolf Bultman diz que toda afirmação a respeito de Deus é afirmação a respeito do homem e vice-versa. Por isso, neste sentido, a teologia paulina é também uma antropologia. O motivo disto é a constatação de que Paulo não fala de Deus, ou de Cristo, nem do homem ou do mundo como são em si mesmos, mas sempre em relação uns com os outros (Käsemann: 2003, p. 11,12). Não creio que toda a mensagem do Novo Testamento precisa ser repensada em categorias existenciais, como Bultman cria, porém, um dos critérios maiores de interpretação do texto bíblico para se fazer uma boa teologia, deve levar em conta o modo de vida dos que escreveram e dos que leram, não deixando de lado o quesito vivencial em que estiveram submetidos.

A teologia na carta escrita à Galácia retrata uma das mais claras declarações sobre a liberdade cristã em contraponto com a indução ao erro dos judaizantes que insistiam que o cristianismo deveria ser uma seita judaica para que tivesse aceitação, tanto pelos judeus como pelo próprio Deus.

O texto que encontramos parece ser de uma forma padrão de doutrina comunitária do cristianismo primitivo o que pode bem ser inferido que Paulo esta mostrando não uma realidade distante e abstrata, mas algo que era vivido nas comunidades da época, uma amostra concreta de  vida e seus dilemas no meio da comunidade.

Adolf Pohl afirma que “a peculiaridade desta pequena carta reside precisamente em sua consistência cristológica. Ela constitui um dedo indicador extra-grande que aponta para o Crucificado com sua verdade abrangente” (Pohl, 2003, pg 27).

E ainda diz que “a devoção judaica à lei apoiava-se de maneira determinante em raça, condição social e gênero, sublimando essas questões em termos religiosos como paredes (Efésios 1.14,15), elevando-as até o céu e tornando-as princípios eternos” (Pohl, 2003, pg. 136).

Nesse ensaio, portanto, gostaria de tecer algumas considerações sobre a visão de Paulo a respeito da Liberdade Cristã, tendo como ponto de vista a centralidade do versículo 28 do capítulo 3 para então discorremos sobre os aspectos do que Cristo e o cristianismo trazem sobre a vida do homem, da mulher, do escravo, do livre, do judeu, do grego.

O destino desta carta de Paulo mudará dependendo de como encaramos o que á Galácia. Se Ancira, Pessino e Tácio ou se Antioquia da Psídia, Icônio, Listra e Derbe; se norte, se sul; se menos abrangente se mais abrangente. A discussão é longa e não é o escopo aqui, portanto irei tomar como base apenas que foi escrito para as “igrejas da Galácia” (1:2). Foi escrito tendo como alvo ou destino um grupo de igrejas a quem o apóstolo queria instruir acerca de erros que os judaizantes estariam os induzindo, mudando a verdade de Deus em mentira e pregando um outro evangelho (1:6).

Com isso Charles Erdman concorda ao dizer que “se for um lugar ou outro não afeta a interpretação da carta nem a sua mensagem para nossos dias” (1988, p. 18,19).

ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA

Paulo percebe que a encarnação de Cristo, como sendo a realidade superior às sombras projetadas na lei deveria ter o lugar de maior destaque na vida de todos os cristãos – “Paulo percebeu que uma vez vindo a substância a sombra devia desaparecer” (Erdman, 1988, p.12). Assim ele toma pra si a responsabilidade de demonstrar, com muitos argumentos bíblico-teológicos e a respeito da própria experiência dele mesmo e dos cristãos a quem se dirige que a igreja não é meramente uma seita judaica, mas é a vontade revelada de Deus para acabar com toda e qualquer distinção entre os homens.

A partir desta apreensão podemos esquematizar que apesar das distinções que havia na época de Paulo – “no mundo dos dias de Paulo a distinção estava profundamente arraigada. Vencê-la marcou uma das maravilhas do cristianismo” (Guthrie, 1988, p. 139) – a afirmação da igualdade para as raças, para as categorias e para os sexos não era uma afirmação pueril de acabar com as diferenças – elas existiam e sempre existirão: mulheres são diferentes de homens, suas manifestações culturais, sociais, emocionais etc, são fruto de sua vida e enxergar a diferença neste aspecto também é valorizar a pessoa.

John Stott afirma que “quando dizemos que Cristo aboliu as diferenças, não queremos dizer que elas não existem, mas que não importam. Continuam existindo, mas já não mais criam barreiras à comunhão” (Stott, 1997, p. 93), portanto em Cristo, as distinções são abolidas, para dar início a formação de um nele mesmo – “todos vós sois um em Cristo Jesus”. Digno de nota aqui é a força do artigo masculino (heis – um) que expressa não uma organização unificada (como poderíamos pensar na igreja instituição) mas sim uma personalidade unificada, um organismo vivo. A questão não é o corporativismo, mas a personalização do um, onde nele, no um, todos são iguais, não há distinções, não existem barreiras à comunhão nem a vida de liberdade que Deus proporciona para os seus em Cristo Jesus.

Stott desenvolve o raciocínio pensando nos três aspectos que Paulo enumera na sua antropologia teológica da liberdade cristã e diz:

Não há distinções de raça – judeu/grego – somos iguais. Iguais em nossa necessidade de salvação, iguais em nossa incapacidade de ganhá-la ou merecê-la e iguais no fato deque Deus no-la ofereceu livremente em Cristo. Não há distinções de categoria – escravo/livre. Quase todas as sociedades do mundo organizam o seu sistema de classes ou castas. Circunstâncias de nascimento, riqueza, privilégios, educação etc dividem as pessoas. Em Cristo não há distinções. Não há distinções de sexo – homem/mulher. As mulheres eram quase sempre desrespeitadas no mundo antigo, até mesmo no judaísmo e não raras vezes exploradas e maltratadas; mas aqui se diz que em Cristo o homem e a mulher são iguais – e quem disse foi Paulo que muitas pessoas  supõem por ignorância ter sido um anti-feminista (1997, p. 92, 93).

Em Cristo Jesus o ser humano atinge a sua maturidade e, portanto não precisa mais dos símbolos que a lei e as sombras se mostram. A simbologia, a analogia, a metáfora ensina muito ao ser humano e enquanto vai aprendendo passa a ver que a sobra não é nada se comparada ao real objeto que faz a sombra.

Erdman argumenta que “a mais elevada situação que se pode almejar a de plena alegria de ser filho de Deus, depende não de atitudes pessoais como o nascimento ou posição social, mas somente da fé em Cristo” (1988, p. 83).

As situações de classe, de dominação, de nível educacional, de posses, de sexo desaparecem na nova vida em Cristo. Paulo sabe muito bem que os judaizantes tinham o seu conceito restrito quando se falava sobre estas separações: os pagãos muitas vezes eram chamados de “cães”; os escravos não passam de meras ferramentas de trabalho, assimilando o conceito de Aristóteles que os chamava de “implemento animado”, apenas uma ferramenta que respira; sobre as mulheres, Josefo, historiador hebreu diz “a mulher, como diz a lei, é inferior ao homem em todas as coias” (Josefo – Contra Apião, II.xxiv). Era contra este tipo de argumentação e vida que Paulo lutava, arregimentando vários tipos de pensamento para trazer à luz a vida de hipocrisia que vivia o judaizante.

Por isso cita com propriedade o episódio em que Pedro é por ele repreendido:

Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar-se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles (Gl 2:11-13).

Pedro, Barnabé e os demais judeus tinham em seu bojo cultural todo o ranço contra os gentios, escravos e as mulheres e não entendiam que em Cristo todas as distinções deveriam ser completa e eternamente destruídas. Paulo critica a sua imaturidade e afirma categoricamente “que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 2:16) para com isso dizer explicitamente que a lei era apenas uma sombra, um aio que conduziria o homem à fé em Cristo.

Este aio (paidagogos) “era um escravo de confiança que levava o jovem à escola e supervisionava suas maneiras e moral. Não podia instruir ou corrigir, mas era encarregado de acompanhar e guardar a criança até que esta, atingindo a maturidade, não mais necessitasse de seus cuidados e disciplina” (Erdman, 1988, p. 80).

Paulo está ensinando às comunidades da Galácia que a lei servira de aio, conduzindo-nos à fé em Cristo e que uma vez em Cristo não existe mais necessidade da lei nos guiar, pois nele, em Cristo, encontramos toda a orientação, disciplina, ensinamentos e conformidades que precisamos.

Viver em Cristo e ainda se colocar debaixo da lei como se dela precisássemos é sinal de imaturidade e de que não entendemos a superior maturidade que nos é proposta em Cristo.

Em Cristo o ser humano atinge uma liberdade da escravidão da lei e aí pode então desenvolver um serviço cristão ao próximo e a Deus em amor, cumprindo a própria lei de Deus – onde ele argumenta que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5:14).

Por isso então Paulo descreve o fruto do Espírito como sendo o resultado da liberdade em amor que Cristo proporciona para que não mais satisfaçamos a carne – aqui todo o campo de tensão que são os desejos e envolvimentos com razões no pecado. O argumento da oposição é uma mostra que Paulo quer fazer entender o conflito existente entre aqueles que ainda vivem debaixo da militância da carne (numa luta contra e junto com a lei) e aqueles que entendem a supremacia do Espírito – nota-se que não é algo que tem uma justa oposição – Espírito não é devidamente confrontado com a carne, mas está acima, supremamente acima dela.

F F Bruce diz que “para Paulo, estar ´debaixo da lei´ é uma maneira de estar ´na carne´” (Bruce, 2003, p. 197).

CONCLUSÃO

Ou a lei ou Cristo é o que Paulo indica no seu escrito para as Igrejas da Galácia, pois ele crê e argumenta firmemente que o mérito da lei é nos levar até Cristo e, portanto promover um encontro com aquele que liberta.

Fazendo uma releitura e trazendo o escrito de Paulo para os nossos dias é patente que ele deveria ter escrito esta carta para as igrejas evangélicas brasileiras que gastam os seus dias se transformando cada vez mais em judaizantes, onde os pregadores judaizantes ganham os púlpitos, as escolas e fazem as mesmas restrições e exigências que se fazia no primeiro século: o homem, livre, educado, rico e de boa posição social tem a bênção de Deus – os outros podem usufruir de tudo se estiverem juntos e acompanharem o seu sacerdócio.

Mesmo após todo o movimento feminista parecem-nos arraigados que a mulher realmente é um ser inferior, bastando-lhe o direito à servidão e obediência; mesmo após a libertação dos escravos pelos idos de 1800 ainda no Brasil pratica-se a escravidão do pobre pelo rico, do fraco pelo forte, do cego pelo que vê e infelizmente o próprio clero tem se feito judaizante, pregando a salvação pela graça, mas exigindo a vida pela lei (doutrina).

Cristo precisa ainda libertar-nos destas distinções tão danosas no meio da sua igreja.

Não pode mais haver negro ou branco; macho ou fêmea; pobre ou rico; clero ou laico porque a encarnação, morte e ressurreição de Cristo fizeram com que o ser humano tivesse sua dignidade e igualdade restaurada, a comunhão entre eles e com Deus é destituída de privilegiados, tendo apenas e tão somente uma condição – a fé em Cristo Jesus.
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Publicado na coluna semanal “Teologia para sobreviventes” no site www.irmaos.com